José Sócrates conduziu o debate e apontou contradições a Pedro Passos Coelho. O líder do PSD apontou “as responsabilidades” ao primeiro-ministro. Se Sócrates esteve mais ao ataque, Passos teve de responder às críticas e explicar as propostas do seu programa eleitoral.
O debate foi um despique sobre quem terá mudado mais de opinião
Foi uma espécie de jogo das culpas durante pouco mais de uma hora nos estúdios da RTP. José Sócrates conduziu o debate, apontou contradições a Pedro Passos Coelho e culpou-o, uma vez, pela crise política que conduziu às eleições de 5 de Junho. O líder do PSD optou por apontar as culpas – “responsabilidades” – ao primeiro-ministro pelo estado de “quase bancarrota” a que chegou o país. Durante mais de meia hora Sócrates pôs Passos e o PSD no alvo para o acusar de pôr em causa o Estado Social.
O líder do PS e primeiro-ministro sublinhou as responsabilidades de Passos pela crise política, após o chumbo do PEC IV, e começou cedo a acusar Passos de ter mudado de opinião sobre o estado do país. Uma coisa era Passos Coelho “empresário”, outra Passos Coelho “líder do PSD”, ironizou. Foi quando citou o relatório e contas de uma empresa gerida por Passos, Fomentinvest, antes de chegar à liderança do partido, em que reconhecia o efeito da crise internacional em 2009 e admitia que economia portuguesa estava a resistir. “Hoje ela [crise internacional] já não existe”, ironizou.
Num despique sobre quem terá mais mudado de opinião, o líder social-democrata respondeu com a leitura de uma série de afirmações do primeiro-ministro em que ia sempre prometendo que não iria aumentar os impostos para resolver os problemas do país. Aumentou-os. “Estas mudanças de opinião afectaram mais o país do que esse relatório e contas que assinei”, disse Passos.
Entrou-se depois em quase meia hora de um combate programático e ideológico, com Sócrates a inspirar-se no projecto de revisão constitucional laranja para confrontar Passos para fazer um discurso mais à esquerda. O líder do PS fez a defesa do Estado Social e de um Serviço Nacional de Saúde (SNS) tendencialmente gratuito, como prevê hoje na Constituição. “Os senhores querem o co-pagamento”, insistia Sócrates. “Eles, na prática já existem”, respondeu Passos. Mais tarde criticou as mudanças no regime do trabalho temporário, que acusou o PSD de querer “liberalizar”.
Passos usou da ironia perante a insistência de Sócrates no programa eleitoral do PSD. “Afinal, Portugal não precisa de ajuda externa, o país está bem, não precisou de aumentar brutalmente os impostos, de cortar nos apoios sociais. Este é o resultado da sua política: são 700 mil desempregados.”
O debate “enrolava” na saúde e passou-se à redução da taxa social única, que os sociais-democratas admitem reduzir até quatro pontos no prazo de uma legislatura. O mais que o líder do PS disse é que tinha dúvidas que se tratasse da medida certa para o país ganhar competitividade, comprometendo-se, conforme está previsto no acordo com a troika do FMI
BCE/UE para o resgate financeiro do país, a uma descida “moderada” nesta taxa.
Entrou-se depois nos números da execução orçamental, divulgados esta sexta-feira. Passos fica preocupado por que a despesa primária do Estado “está a descer pela metade”, acusando os socialistas de, “sem deixar arrefecer” o que foi assinado com a troika, já não estarem a cumprir quanto ao défice.
Sócrates queixou-se que nem mesmo as boas notícias param a “maledicência” do líder social-democrata. “Chega de dizer mal do país”, disse Sócrates, mais exaltado.
Citação Público